Retângulo de cantos arredondados:

Winnicott ouvia com o corpo todo e tinha o olhar penetrante – mas não importuno – que nos fitava com um misto de descrença e total aceitação. Uma espontaneidade infantil impregnava seus movimentos.  E no entanto podia ser tão tranqüilo, tão concentrado e tranqüilo! Não conheci nenhum outro analista mais inevitavelmente ele mesmo.

 

Vindo da pediatria, Winnicott ingressou na British Psycho-Analytic Society na década de 20 – talvez um dos períodos de pesquisa mais importante e criativa da psicanálise: além das últimas criações de Freud   (com suas revisões da teoria estrutural, da teoria pulsional e da teoria da angústia), em Budapest Ferenczi abria aos analistas novos horizontes clínicos, e Melanie Klein e Anna Freud iniciavam suas pesquisas com análise infantil. Em 1926 Melanie Klein vem de Budapest para Londres e ingressa na British Society, da qual faziam parte nomes como James Strachey e Joan Riviere (ambos analistas de Winnicott), Susan Isaacs e Bárbara Low, entre outros. Certamente Winnicott recebeu todas estas influências, mas,  ainda assim, sendo um homem para além de seu tempo, assumiu na psicanálise posições tão revolucionárias e incômodas para seus colegas como fizera na pediatria.

 

Dentre as inúmeras inovações propostas por Winnicott, temos:

A distinção entre necessidades do ego e necessidades do id – revolucionária mudança de ênfase no pensamento e na prática psicanalíticas de sua época.

 

Criação dos conceitos de Espaço Potencial e Fenômenos e Objetos Transicionais – que levam o pensamento psicanalítico a reavaliar o papel da cultura como algo positivo e construtivo na experiência humana  (e não apenas como geradora de descontentamento).

Nova visão sobre a agressividade e a destrutividade, que dispensa o conceito de pulsão de morte e afirma o valor positivo da agressividade.

 

Aprofundamento e detalhamento do estudo e pesquisa das relações objetais primitivas através dos conceitos de Objeto Subjetivo, Relação de Objeto e Uso de Objeto, bem como de Mãe Ambiente x Mãe Objeto, Mãe suficientemente boa e falha ambiental.

 

A importância do brincar e da criatividade, tanto para a saúde quanto para o desenvolvimento do trabalho psicanalítico.

Criação dos conceitos de Verdadeiro e Falso Self e percepção do fantasiar como uma organização defensiva do Falso Self.

Ênfase na importância do setting – visto como o conjunto de atitudes e manejo do analista - paralelamente à interpretação.

 

Ampliação do conceito de Transferência, descrita como um processo  mais amplo do setting clínico, no qual paciente e analista estão constantemente sendo criados e descobertos um pelo outro. É esta mutualidade e reciprocidade que cria um novo dinamismo, que é mais do que mera  transferência de relações objetais.

Ênfase na importância da regressão à dependência no setting analítico, no caso de determinadas patologias.

 

Sabemos que a fonte na qual a psicanálise se alimenta é a clínica. Freud construiu sua teoria a partir de uma clínica onde  predominavam neuróticos adultos. Winnicott, trazendo para a psicanálise sua extensa experiência como pediatra, propôs-se ao estudo do primitivo no psiquismo, ampliando com isto o campo da psicanálise - nele incluindo patologias que têm como núcleo  traumas precoces, ocorridos em um momento em que ainda não havia um ego suficientemente estruturado para lidar com eles e em situações em que estava ausente um ambiente suficientemente bom que funcionasse como ego auxiliar, decorrendo daí distorções estruturais de diferentes níveis. “Há uma grande diferença entre aqueles pacientes que tiveram experiências iniciais satisfatórias que podem ser descobertas na transferência e aqueles cujas experiências iniciais foram tão deficientes ou distorcidas, que o analista tem que ser a primeira pessoa na vida do paciente a fornecer certas coisas que são essenciais no meio ambiente. No tratamento do paciente do segundo tipo, cada detalhe técnico da prática analítica que, no tratamento do primeiro tipo de paciente, é tido como algo natural, adquire uma importância vital”.  Para lidar com este tipo de pacientes, partindo de seu conceito de mãe suficientemente boa, Winnicott propõe  a adaptação do analista à necessidade do paciente, abrindo assim um vasto campo para a criatividade do analista. Aliás, a criatividade é um ponto central das pesquisas de Winnicott – e algo que ele considera fundamental tanto para a saúde quanto para o trabalho psicanalítico.

Creio que é por estar tão centrado nesta idéia e na liberdade que ela traz,  que  a teorização Winnicotiana jamais foi propícia à formação de uma Escola, que colocaria limites a ambas. Tanto que, na disputa entre freudianos e kleinianos, Winnicott colocou-se no middle (ou independent) group, mantendo-se fora da polêmica. Creio  também que foi por isto que ele foi “polidamente ignorado”  por seus contemporâneos.

 

Mas neste momento em que o mundo passa por tantas transformações a um ritmo cada vez mais veloz, transformações que necessariamente repercutem em nossa clínica e exigem que a psicanálise  esteja constantemente se reinventando, a obra de Winnicott vem sendo resgatada e valorizada, uma vez que sua liberdade criativa nos abre as portas e nos aponta os caminhos destas reinvenções, desafiando-nos a usarmos nossa própria criatividade no contato com a clínica.

 

Convido a participar deste Departamento todos que se interessem pela obra de Winnicott e que desejem nos enviar artigos, comentar os que já estão aqui expostos, propor palestras, grupos de discussão e de estudo.

 

O Departamento de Winnicott funciona em parceria com a Sociedade de Psicanálise da Barra, onde no momento está em funcionamento um Núcleo Avançado de Winnicot, no qual são estudados textos do autor seguindo uma abordagem temática. Mais informações podem ser obtidas no site da Sociedade, que pode ser acessado através da gazeta virtual Sentire.

 

 

          

Maria Lucia Pilla

 

 

 

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O ódio na contratransferência, em Da Pediatria à Psicanálise, pg. 347

Prefácio de M. Masud R. Khan à obra Da Pediatria à Psicanálise

 

 

 

 

 

 

 

Donald Winnicott/RJ

Coordenação Maria Lucia Pilla

 

 

 

 

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